Com a sua coleção de primavera, Sharon Wauchob quis mudar a forma como pensamos sobre o vestuário depois do anoitecer. O vestuário de noite é, sem dúvida, a categoria de vestuário mais estática, construída frequentemente em torno de uma ideia de transformação ao estilo da Cinderela.

“Acho que não é ótimo quando nos vestimos à noite e mudamos totalmente a nossa personalidade, porque quero manter a minha personalidade quando me visto”, disse a designer. Wauchob falava tanto sobre identidade como sobre estilo, mas, claro, é mais fácil visualizar este último.

Ela tornou possível que uma pessoa adepta de calças e camisas, por exemplo, continuasse com esse visual na hora mágica e até mesmo depois de as carruagens voltarem a ser abóboras, através de peças como camisolas regatas e t-shirts da mais fina malha com bainhas enroladas à mão, semelhantes às dos lenços foulard.

Havia também um top sem mangas em résille (rede) francesa transparente, com franjas de missangas tingidas e aplicadas à mão, que a designer imagina ser usado com um blazer ou um smoking. “É quase joia, mas não é”, acrescentou ela.

“Quase” poderia ser, de facto, o princípio operativo desta coleção, que foi construída em torno da ideia do crepúsculo, um momento intermédio, um fim e um começo. Tendo descoberto que as suas clientes “estão realmente confiantes a mostrar os seus corpos”, Wauchob brincou com o jogo de revelar e ocultar.

Um vestido slip dress preto caviar, com rebordo de renda em festão, estava fendido até à coxa, mostrando calções embutidos. A renda peekaboo predominava em toda a coleção.

Havia uma renda metálica, uma saia em painéis feita de diferentes tipos do mesmo material, usada com uma camisa branca elegante, e uma maravilhosa saia romanticamente enfeitada com penas. Era tão leve como um suspiro.

Quanto à alfaiataria, havia calças elegantes com uma faixa de smoking integrada, e um parka num tom cor-de-rosa rococó pálido que se franzia quase formando uma anquinha nas costas.

Wauchob, que se formou em Paris, é uma designer prática e acredita em dedicar o tempo necessário para fazer as coisas corretamente. Todas as suas peças são feitas em Londres, e ela relatou que recentemente passou dois dias a trabalhar com um artesão porque quer que as suas peças sejam plissadas, em vez de fazer peças com tecido já plissado.

Veja as calças de cetim de seda enrugadas, com lantejoulas aplicadas à mão nas dobras, e a saia alongada. O método de Wauchob exige que, por vezes, as peças tenham de ser desmanchadas.

“Se retirarmos qualquer um dos processos a isso, isso muda totalmente a energia da peça, muda mesmo. Manter estas coisas é importante e traz um pouco de surpresa ao cliente”, observou ela.

“Ser bastante irreverente com algo precioso, eu gosto de fazer isso. Quero dizer, deixa-nos nervosos, mas é muito interessante ver até onde se pode ir”, disse esta criadora de roupas que são “quase alta-costura”.